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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O pedantismo da apologia cristã em face à evidência manuscrita da obra Anais de Tácito

O pedantismo da apologia cristã em face à evidência manuscrita da obra Anais de Tácito
F. C. Vieira Lima jr.


A apologética cristã se caracteriza pela posição ultra-fundamentalista na qual tenta defender e fundamentar suas idéias, interpretações e postulados religiosos. Orientadas pelo viés do atavismo patriarcalista do etnocentrismo hebreu e do exclusivismo religioso vem, desde a Antiguidade Tardia, tentando demonstrar, a todo o custo, a confiabilidade e superioridade de sua fé em relação às demais fés e de sua história em relação às demais histórias. Como qualquer grupo social, ao fazer proselitismo de sua crença tenta sabotar seus rivais.

Uma das formas que o cristianismo apologético inventou para mostrar sua superioridade é o uso do argumento de que a providência divina tem estado do lado dos cristãos – por causa dos diversos fatos que (supostamente) demonstram isso. A preservação de seus “documentos sagrados” e sua variedade em relação aos demais textos de todas as épocas constitui o principal argumento para provar que Deus está do lado dos cristãos (e de mais nenhuma outra religião) e que sua religião é “superior” (e que nenhuma outra religião é).

Tal prática de imposição ideológica foi sendo desenvolvida até que surgiu a necessidade de se persuadir às classes eruditas e embasadas na Ilustração e no pensamento racional douto. Nessa fase da apologia cristã, com o fim de contrapor o Iluminismo grego que renascia a partir do Renascimento europeu, a política de rechaçamento e perseguição foi substituída pela tentativa de provar a fé por meio da razão, como artifício retórico capaz de demonstrar e convencer as mentes intelectuais da credibilidade e ascendência da fé cristã. Para isso, porém, muitas vezes recorreram à apresentação argumentos falsos, falaciosos ou no mínimo errôneos, contribuindo assim para a disseminação da ignorância e de informações equivocadas para o público alvo.

O público alvo, por sua vez, mesmo depois de décadas, dificilmente são capazes de se desvencilharem e de tomarem conhecimento desses erros e, ao se converterem por causa dessas informações equivocadas, contribuem para a manutenção e continuidade da tradição do equivoco que chegou a se infiltrar, inclusive, no mundo acadêmico.

Chegando ao século XX, um exemplo do poder disseminador desse tipo de equivoco se encontra nas obras de Josh McDowell, um pregador cristão fundamentalista dos Estados Unidos, que nos anos 70 escreveu uma obra ultra-apologética chamada “Evidências que Exigem um Veredito” (1972, 1993). Nessa obra apresenta uma grande seleção de frases e informações, oriundas da pena de diversos estudiosos – especialmente arqueólogos e historiadores – que (supostamente) endossam a idéia de que as histórias transmitidas pelas narrativas neotestamentárias são incontestavelmente verdadeiras.

Diversas informações apresentadas nesse livro, entretanto, foram demonstradas serem falsas e errôneas, sendo que muitos dos autores utilizados foram simplesmente retirados de seu contexto e/ou distorcidos. Se ao autor apologista Josh McDowell não falta disposição e determinação ao selecionar materiais corroborativos à sua fé, por outro lado, carece dos atributos básicos inerentes a qualquer estudioso sério, como, por exemplo, o senso crítico.

Grande parte das vezes McDowell simplesmente arrola uma série de citações de estudiosos, sem parar para analisar nem a defasagem das informações apresentadas nem a veracidade de tais afirmações.

Um caso típico em que McDowell tenta demonstrar a veracidade de seu exclusivismo religioso é quando tenta provar a credibilidade da Bíblia ao colocar em colunas paralelas o número de manuscritos remanescentes dos livros do Novo Testamento e os manuscritos restantes dos escritos do período clássico e greco-romano. Enquanto existem quase 25 mil manuscritos do Novo Testamento, diversos escritos da Antiguidade nem chegam a ter mais que um punhado de manuscritos remanescentes – o que demonstra, de forma pedante, a dos manuscritos bíblicos (o que pressupõe – o que para os cristãos apologistas já é o bastante – uma ilusória superioridade qualitativa).

As obras de Tácito, um antigo historiador romano, foram vítimas desse “argumento”. A obra Anais, que descreve a decadência, na visão do autor, e as perversidades da tiraria romana na época da Pax Romana, é utilizada pelos cristãos apologistas para demonstrar que existe um número significativamente bastante baixo de testemunho textual que a evidencie.

Esse argumento de caráter predominantemente etnocentrista e pedante, parte do livro “O Novo Testamento merece confiança”, F. F. Bruce (1990, p. 23-24), citado por McDowell (1993, p. 52-53) sem qualquer análise aprofundada, em que se realiza diversas comparações entre o numero de manuscritos sobreviventes do Novo Testamento e o numero de antigos textos de história clássica e romana, querendo com isso jactar-se da superioridade de manuscritos da Bíblia cristã. Para isso, compara o Novo Testamento com a obra antiga Anais de Tácito – da qual nos restam apenas 2 manuscritos não-completos. Bruce faz a seguinte declaração:

“Talvez nos possamos avaliar melhor quão rico é o Novo Testamento em matéria de evidência manuscrita se compararmos o material textual subsistente com outras obras históricas da antiguidade. [...] dos dezesseis livros de seus “Anais” [de Tácito), restam 10 completo e 2 incompletos. O texto das porções existentes das duas grandes obras históricas de Tácito depende totalmente de dois manuscritos, um do século nono e outro do século onze”.

Para Mcdowell, essa é “uma evidência que exige um veredito” (um veredito, é claro, a favor da fé cristã e contra Tácito), pois “nenhum outro documento da história antiga chega perto dos números e da confirmação dos manuscritos do Novo Testamento” (p. 50). Ao ir folheando sua obra, fica clara o motivo de Mcdowell se apropriar dessa comparação: através dela poderá fazer analogia, pois, se a historiografia contemporânea dá crédito a obras como Anais de Tácito – que possuem um número tão irrisório de testemunhos manuscritos que datam de quase mil anos – por que não dá crédito à obra aos evangelhos, que em manuscrito e dada se mostra ser infinitamente superior? Esse parece ser um argumento convincente. Apenas parece. Nenhum desses argumentos é verdadeiro.

Existem pelo menos dois fatores que contribuem para a derrocada argumentativa dessa posição. O primeiro fator corresponde ao porque da obra de Tácito ter sido transmitida à posteridade através de um numero bastante insignificativo de manuscritos. O segundo fator diz respeito a questão da datação que, se realmente for comparada, não demonstrará grande diferença entra a obra taciteana e a obra bíblica.

Como se tem conhecimento, a igreja medieval realizou deu continuidade a um processo de triagem selecionando os documentos antigos úteis e salutares a fé cristã, e destruindo todos os demais documentos que, de alguma forma, fossem prejudiciais a sua fé. De fato, pode-se atribuir grande parte da insuficiência de manuscritos não-cristãos remanescentes à ação destrutiva dos cristãos antigos.

O filosofo francês renascentista Michel de Montaigne ( p. 51, Vol. II), já no século XVI d.C., comentava sobre o papel destruidor da igreja em relação as obras de Tácito, afirmando que o número de manuscritos dessa obra, caso tivessem sobrevivido, constituiria um número considerável:

“É certo que nos primeiros tempos, quando nossa religião principiou a ser admitida pelas leis, o zelo dos prosélitos incitou à destruição de livros pagãos e a excessos que acarretaram mais prejuízo do que os incêndios perpetrados pelos bárbaros. Tem-se em Cornélio Tácito um exemplo típico do que afirmo, pois embora o imperador, seu parente, houvesse, mediante decretos especiais, espalhado sua obra pelas bibliotecas do mundo inteiro, nem um só exemplar completo escapou à sanha dos que, por causa de cinco ou seis trechos contrários a nossas crenças, o destruíssem”.

O trecho que seria considerado o responsável pela perseguição eclesiástica anti-taciteana é Anais XV, 44, que, além de pressupor que os cristãos apostólicos (a quem os cristãos posteriores que destruíram os manuscritos taciteanos tinham o mais profundo apreço) “realizavam atrocidades”, rotula explicitamente o cristianismo de “perniciosa superstição” e “flagelo”. Além disso, Tácito compara o cristianismo a uma “coisa horrível e vergonhosa”, ao afirmar que a Roma afluem esse tipo de coisa e sustenta que os primeiros cristãos eram criminosos que deveriam ser condenados à morte por odiar o gênero humano: “os cristãos [eram] culpados e merecedores de maiores castigos [...]”. (TÁCITO, s/d, p. 248). É bem provável que Tácito tenha dirigido ainda mais insultos ao cristianismo nessa obra, pois boa parte da mesma não chegou a nós.

De acordo com o historiador Momigliano (2004, p. 174), diversos cristãos piedosos do final da Idade Medieval lembravam que Tácito havia sido atacado pelo grande cristão patrístico Tertuliano por causa dos insultos que havia cometido contra os cristãos apostólicos. Tertuliano lembrava-se com ódio a afirmação taciteana de que o cristianismo não passava de uma ”monstruosa superstição” (TERTULLIAN, 2006 [online]).

Já no período da Renascença a posição de Tertuliano e dos cristãos medievais, segundo Momigliano (2004, p. 178), ainda era comum entre diversos cristãos, em que muitos o chamavam de “um historiador pagão e inimigo do cristianismo” e diziam que “uma sílaba do Evangelho era preferível a toda obra de Tácito”. Desse modo, muitos foram os cristãos que “jogaram a água suja fora com o bebê”, pois deixaram que a imagem negativa que Tácito pintou dos cristãos em Anais XV, 44 contaminasse toda sua obra historiográfica.

Desse modo, podemos concluir que, se por um lado restam poucos testemunhos textuais da obra Anais de Tácito, por outro lado, esse fato só pode ser explicado porque a Igreja cuidou de destruir todos esses testemunhos.

Do mesmo modo, não há muito do que jactar-se sobre a superioridade quantitativa dos manuscritos do Novo Testamento, pois é certo que a Idade Medieval caracterizou-se como um período predominantemente controlado pela ideologia, cultura, política e religiosidade cristãs, de modo que isso contribuiu para a implementação do aumento no número de cópias do Novo Testamento em detrimento dos escritos pagãos. De acordo com Barth Ehrman (2000, p. 443), era inevitável, dado o contexto medieval, que obras como Tácito fosse pouco preservadas, e que cópias dos livros do Novo Testamento fossem abundantes:

“Naturalmente, deveríamos esperar que o Novo Testamento fosse copiado na Idade Média com mais freqüência do que Homero, Eurípides ou Tácito; os copistas treinados em todo o mundo ocidental na época foram escribas cristãos, freqüentemente monges, que, na sua maioria, estavam preparando cópias desses textos para fins religiosos. Ainda assim, o fato de que temos milhares de manuscritos do Novo Testamento que foram feitos durante a Idade Média, muitos deles de milhares de anos após Paulo e seus companheiros terem passado sobre a face da terra, não significa que podemos estar certos de que sabemos o que o texto original dizia. Pois, se temos muito poucas cópias antigas (na verdade, praticamente nenhuma), como podemos saber que o texto não foi alterado de forma significativa antes que começasse a ser reproduzido em quantidades tão grandes?”.

Desse modo, na mesma medida em que os cristãos destruíam a literatura pagã, produziam mais e mais cópias dos documentos cristãos considerados sagrados. Por isso, não é de se estranhar que 97,2% dos testemunhos textuais do Novo Testamento grego pertençam a Idade Medieval – época em que a cultura, sociedade e política eram dominadas pela Igreja, que reproduziu centenas de cópias do Novo Testamento para sua propaganda religiosa.

Ainda assim, apenas 2,8% de todos os manuscritos do Novo Testamento grego pertencem à Idade Antiga Tardia. 93,6% desses manuscritos foram escritos depois do século 9° d.C. - ou seja, mais de 800 anos após os relatos que narram. Ou seja, a parte absolutamente majoritária dos textos do Novo Testamento data de quase a mesma época que Bruce alegou datar os manuscritos remanescentes de Anais de Tácito. Apenas 0,03% de todos os manuscritos existentes do Novo Testamento pertencem ao século II d.C., e se constituem meros 2 papiros fragmentados – o que não é grande coisa.

Já os manuscritos do Novo Testamento latino, etiópico, eslovânico, armênio, siríaco e copta, que constituem quase 20 mil de todos os manuscritos existentes, são tardios e escritos após o século IV. D.C. São chamados de “testemunhas indiretas” (sendo que as testemunhas diretas seriam os manuscritos escritos em grego) e datam do ano 350 d.C. até o século IX. Algumas versões podem remontar ao ano 180 d.C., mas nesse caso são poucos os manuscritos. De acordo com Mainville (1999, p. 34) “as únicas versões [das testemunhas indiretas] de alguma utilidade para a crítica textual são as que foram traduzidas diretamente do texto grego, ou foram revistas com base no texto grego”. Somente as mais de 10 mil versões do Novo Testamento da Vulgata Latina pertencem ao século IV d.C. Já os manuscritos siríacos, que somam mais de 350 manuscritos, datam entre os séculos IV e V d.C. O mesmo pode ser dito em relação às versões copta, armênio, geórgico, entre outras, que tem a mesma idade. Já a versão etiópica, que conta com mais de 2 mil manuscritos, são datados desde o século XIII d.C., sendo que a maior parte de todas essas versões são oriundas do texto bizantino, considerado a pior família textual, em termos de pureza e confiabilidade, dos manuscritos do Novo Testamento.


BIBLIOGRAFIA

ALAND, Kurt (ed.) [et al]. The New Testament Greek. Third Edition. Stuttgart-Germany: United Bible Societies, 1988.

ALAND, Kurt; ALAND, Barbara. The Text of The New Testament: An Introduction to the Critical Editions and to the Theory and Practice of Modern Textual Criticism. 2nd. Revised Edition. Michigan: William B. Eerdmans Publishing Company / Grand Rapids, 1995.

BRUCE, F. F. Merece confiança o Novo Testamento? 2.ed. São Paulo: Edições Vida Nova, 1990.

EHRMAN, Bart D., The New Testament: an historical introduction to the Early Christian writings, 2000.

MAINVILLE. Odete. A Bíblia à luz da história. São Paulo: Paulinas, 1999.

MCDOWELL, Josh. Evidência que exige um veredito: evidências históricas da fé cristã. São Paulo: Candeias, 1993.

MOMIGLIANO, Arnoldo. As raízes clássicas da historiografia moderna. Trad. Maria Beatriz B. Florenzano. Bauru, SP: EDUSC, 2004.

TÁCITO, C. Cornélio. Anais. Trad de Leopoldo Pereira. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.

TERTULLIAN. Ad Nationes. Trad. Dr. Holmes. In: KIRBY, Peter. Early Christian writings. 2 Feb. 2006. Disponível em: <> Acesso: 20 ago. 2009.

2 comentários:

Anônimo disse...

Todas as vezes que eu leio algum trecho do novo testamento, me vem a dúvida. Como fui criado em lar cristão, e fiz teologia, eu tenho os originais em grego e hebraico, e recorro a eles sempre. Se vejo algum trecho na televisão ou em algum outro lugar, eu pego os originais e vou conferir. Não vou entrar no caso, pra mim, caótico, da tradução do velho testamento. Vamos ao novo testamento. Eu não consigo ler e fazer a minha tradução sem a impressão de que o autor está rolando no chão de tanto rir. Simplesmente não consigo. Pra mim o tom jocoso está presente nos evangelhos, atos e as chamadas cartas paulinas. E eu fico pensando: quem poderia ter escrito isto? ou quem escreveu o rascunho que deu origem a isto? Sinceramente; eu não vejo uma única linha que tenha aproveitamento. Só propósito indigno.

Eduardo Marculino disse...

Parabens pelo BLOG
abraços